SP! Empresa de laranja comanda folha de pagamento secreta na prefeitura; veja - Conexão Correio

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SP! Empresa de laranja comanda folha de pagamento secreta na prefeitura; veja

Foto arte metrópoles A Agência Quarter, que a coluna já mostrou estar no nome de uma mulher que morava em um cortiço, controla uma folha sal...

Foto arte metrópoles

A Agência Quarter, que a coluna já mostrou estar no nome de uma mulher que morava em um cortiço, controla uma folha salarial sigilosa na Prefeitura de São Paulo, com salários que chegam a R$ 40 mil por mês, valor de 30 diárias de um “produtor executivo”. A empresa tem mais de R$ 178 milhões em contratos vigentes de terceirização de mão de obra com a São Paulo Turismo (SPTuris), que alega que nem ela tem dados dos trabalhadores que prestaram os serviços.

A Quarter e a DKS, do mesmo grupo, receberam ao menos R$ 357 milhões entre 2020 e 2024 para terceirizar mão de obra para secretarias municipais, especialmente as de Cultura e Turismo, sempre por intermédio da SPTuris – os números de 2025 são omitidos no portal da Transparência. A situação é alvo de um inquérito do Ministério Público do Trabalho (MPT).

O inquérito investiga um processo de “quinterização” de mão de obra. Secretarias contratam a SPTuris para que esta contrate empresas (basicamente a Quarter e a DKS), que por sua vez devem contratar microempresas para estas, enfim, cederem pessoas para trabalharem para as secretarias, subordinadas a funcionários públicos. O MPT já ouviu de diversas testemunhas que esses funcionários é que escolhem quem será contratado pelas agências.

A Quarter é comandada pelos irmãos Marcelo e Victor Correia Moraes, mas está no nome de uma mulher que até recentemente morava de aluguel com a família em um cortiço na zona norte, de aluguel, apesar de ter tirado R$ 14 milhões de lucro só em 2024. Victor, conhecido como Vitinho, responde pela DKS, ainda que também não apareça formalmente como sócio.

A coluna questionou a prefeitura de São Paulo na semana retrasada sobre quantos funcionários da Quarter trabalham na secretaria de Turismo e na SPTuris, mas não obteve resposta. A gestão Ricardo Nunes (MDB) também não respondeu quanto a SPTuris pagou à agência entre 2025 e 2026, dados que estão sendo omitidos no sistema de Transparência. Só até 2024 foram R$ 129 milhões.

A Quarter defendeu a legalidade dos processos (leia mais ao final do texto) e, mais uma vez, negou que Nathália, a dona da empresa que morava em um cortiço, seja laranja. “Ela atua de forma ativa e comprovável na condução do negócio, com registros em e-mails, fotos e documentações de participação em decisões administrativas e operacionais, incluindo aprovações e acompanhamento de entregas”, disse a Quarter. A empresa negou entrevista dela e, nesta segunda, informou à Junta Comercial que ela agora mora em uma sala comercial. A Quarter também rejeitou fornecer as fotos que compravam que ela “acompanha entregas”.

Já a prefeitura destacou que pediu que a Controladoria Geral do Município (CGM) investigue as denúncias já trazidas por esta coluna. Não conseguimos contato com a DKS.

Contratos sem transparência

A função de “produtor cultural” é “indispensável” para o cotidiano da Secretaria de Cultura – conforme a gestão Nunes disse ao MPT -, mas não há previsão de realizar concurso para o cargo. Daí a necessidade de contratar produtores terceirizados.

Por uma escolha da gestão Nunes, tais contratações acontecem com intermediação da SPTuris, que cuida do processo licitatório, contratando DKS e Quarter sempre a partir de atas de registro de preço – adotando valores e condições de contratos já firmados anteriormente. Também é a SPTuris quem atesta que o serviço foi prestado e libera o pagamento.

A intermediação da SPTuris, uma sociedade de economia mista, flexibiliza significativamente a transparência do contrato. Exemplo é a contratação da mesma Quarter pela Secretaria de Turismo para administrar as Centrais de Informação Turística (CITs). Na prestação de contas, a agência é obrigada a fornecer holerite de todos os contratados. Isso torna público, por exemplo, que a Bárbara Correia Moraes, irmã dos donos da Quarter, é contratada com salário de R$ 19,2 mil como coordenadora.

Já nos processos de prestação de contas dos contratos intermediados pela SPTuris só são incluídas as notas fiscais da Quarter cobrando a SPTuris com o número de acionamentos e o valor a ser pago. A agência não informa quem trabalhou, fazendo o que, nem onde. Também não comprova que o serviço foi prestado.

Tal modelo dá uma grande abertura ao nepotismo a partir de nomeações cruzadas que não seriam aceitas no serviço público. É o caso da contratação, pela Quarter, tanto da filha quanto a ex-esposa de Marcelo Alves Ribeiro, coordenador de eventos da Secretaria de Turismo e, na prática, a pessoa responsável pela gestão do contrato com a Quarter.

A coluna teve acesso a diversas imagens mostrando Vanessa, ex-mulher de Marcelo, e a filha deles, contratadas pela Quarter para trabalhar para a área de eventos da SMTur, comandada exatamente por Marcelo. O coordenador hoje é casado com Bruna Gadelha, ex-chefe de gabinete da Secretaria Municipal de Segurança. Os dois são sócios de uma construtora e recentemente terminaram a construção de quatro casas no litoral norte.

Procurada para comentar o caso, a prefeitura não respondeu. A Quarter disse que “eventuais prestações de serviço podem ocorrer de forma pontual, especialmente em funções operacionais típicas do setor de eventos, sempre com documentação fiscal regular”. A empresa citou a LGPD para não confirmar se a ex-esposa e a filha de Marcelo Ribeiro prestaram serviço para a prefeitura a partir da agência.

Atas de registro de preço

A Quarter, como já mostrou a coluna, tem oito contratos com a SPTuris para oferecer “guias turísticos”, “produtores executivos” e “recepcionistas”, entre outros postos. A DKS, que passou a ser menos acionada depois de ser alvo de investigação do Ministério Público de São Paulo (MPSP) e do Ministério Público do Trabalho (MPT), fornece “serviços de apoio ao trânsito para eventos” e “agente de apoio operacional”.

As contratações acontecem pelo modelo de “empreitada por preço único”. A SPTuris abre edital para contratar o serviço e, no mesmo dia, a Quarter ou a DKS apresentam uma ata de registro de preço de outro contrato com a própria SPTuris e fecham contrato para fornecer centenas de milhares de diárias por um valor fixo.

Parte destas contratações é visível. É o caso, por exemplo, dos guias de turismo que atuam uniformizados em eventos organizados ou apoiados pela prefeitura. A Quarter é acionada para fornecer determinado número de guias bilíngues e recebe R$ 1.534 pela diária de cada um deles, pagando R$ 570 para cada trabalhador, sempre como pessoa jurídica (PJ). Só no Carnaval, oficialmente, a prefeitura contratou 2,9 mil diárias, o que tem um custo de aproximadamente R$ 4,5 milhões aos cofres públicos.

A maior parte dos pagamentos da SPTuris à Quarter, porém, é relativa pelo fornecimento de “produtores”. São R$ 94 milhões só em contratos vigentes para cessão deste tipo de profissional, que tem um escopo de trabalho amplo – isso em tese, porque a coluna não encontrou nada nos processos que explique o que faz um produtor.

Isso permite que sejam “produtores” tanto os profissionais que organizavam o carnaval nas ruas de São Paulo quanto pessoas que dão expediente de forma contínua nas sedes das secretarias de Cultura e Turismo. A própria Cultura, porém, disse ao MPT que não tem como calcular quantos eram os trabalhadores nesta situação no ano passado, já que ela não tem relação com as terceirizadas, que prestam serviço à SPTuris.

Pelo mais recente contrato assinado, a SPTuris paga R$ 1.315 à Quarter por cada acionamento de um produtor. Só em um dia de pré-Carnaval foram 247 acionamentos. A documentação pública não informa quem foi contratado, para fazer o que, nem onde.

A prefeitura tem mantido os dados da SPTuris em 2025 indisponíveis no site da Transparência. Assim, é incalculável o valor pago às duas agências por esses acionamentos no ano passado. Em 2024 foram R$ 50 milhões só para a Quarter. Desde então, os contratos ficaram maiores.

Rede de empresas e investigação do MPT

O MPT abriu inquérito em abril do ano passado para investigar a terceirização na Secretaria de Cultura a partir da DKS, empresa representada por Victor Moraes junto à pasta. Ele e o irmão Marcelo Moraes são apontados como os donos, de fato, da Quarter – Marcelo responde pela agência perante a prefeitura, assinando como diretor.

Segundo a denúncia recebida pelo MPT, quem selecionava pessoas para trabalharem pela DKS eram funcionários da Secretaria de Cultura. “Em muitos casos, a pessoa vai trabalhar diretamente na secretaria, comparecendo todos os dias, com folha de ponto, férias informais, subordinação, onerosidade, enfim, cumprindo todos os requisitos da relação de emprego, mas recebendo enquanto MEI, como se prestasse uma atividade pontual externa”, diz a denúncia.

Isso foi corroborado por dezenas de depoimentos já colhidos pelo MPT. Uma das testemunhas disse que que prestou serviços à Secretaria de Cultura por meio da empresa DKS, com contrato sempre mensal, mas contínuo. Relatou também que trabalhava presencialmente na Secretaria de Cultura e respondia a uma diretora da pasta.

Outro trabalhador da secretaria relatou que prestava serviço à DKS, dentro da pasta, desde 2021, analisando documentação dos editais de premiação para casas noturnas e centros culturais. É a equipe dele, terceirizada, quem analisa prestações de contas de projetos. Outros diversos relatos apontam que era a própria secretaria que escolhia quem seria contratado. A DKS apenas recebia o dinheiro e repassava uma parte ao trabalhador, ficando com o restante.

Cobrada pela MPT em 29 de agosto do ano passado, a Secretaria de Cultura disse em novembro que a situação é “delicada”, afirmou que o contrato com a DKS estava para vencer e se comprometeu a “buscar formas de atender as exigências do MPT nos próximos contratos”. À coluna, a prefeitura disse que não utiliza os serviços da DKS desde setembro de 2025. Na verdade, ontem (23/2) mesmo a SPTuris pagou R$ 11 mil à DKS por um acionamento em janeiro.

O que dizem os envolvidos

A coluna enviou a seguintes perguntas à prefeitura de São Paulo:

Por que a prefeitura opta pelo modelo de contratação que envolve a SPTuris? Se há necessidade de terceirizar mão de obra na Cultura e o dinheiro sai da Cultura, por que a Cultura não realiza a contratação?

Por que as prestações de contas não envolvem qualquer necessidade de transparência sobre o que foi executado, onde e por quem?

Reforço pergunta já feita: quantas pessoas terceirizadas a partir da DKS e da Quarter dão expediente diário nas Secretarias de Cultura e Turismo e na SPTuris?

Reforço pergunta já feita: quanto a SPTuris pagou à DKS e à Quarter em 2025 e 2026?

A prefeitura respondeu com a seguinte nota:

A Prefeitura de São Paulo informa que desde setembro de 2025 não utiliza os serviços da DKS e não tem mais contrato com a empresa. Em relação ao que o Portal Metrópoles chama equivocadamente de terceirização, a administração informa que se trata de fornecimento de mão de obra eventual para eventos específicos promovidos por cada pasta. Vale ressaltar que todo o serviço tem estimativa de custo e sua respectiva prestação de contas. Conforme já informado ao Metrópoles, o prefeito Ricardo Nunes determinou abertura de processo investigatório na Controladoria Geral do Município para apurar a veracidade das denúncias apresentadas pelo portal.

Já a Quarter se posicionou com a nota abaixo:

É falsa a afirmação de que a sócia administradora seria “laranja”. Ela atua de forma ativa e comprovável na condução do negócio, com registros em e-mails, fotos e documentações de participação em decisões administrativas e operacionais, incluindo aprovações e acompanhamento de entregas. Há lastro patrimonial e fiscal compatível, com origem lícita e evolução coerente com os rendimentos declarados e todos os impostos pagos, o que afasta qualquer narrativa baseada em ilações.

A Agência Quarter adota uma estrutura de governança organizada por níveis de gestão com delegação clara de funções. A sócia administradora exerce atribuições de natureza estratégica e não atua na rotina operacional diária — o que é compatível com o porte e a dinâmica da empresa, sobretudo em operações que mobilizam centenas de profissionais por demanda. Sua atuação é comprovada por aprovações formais de contratos e pagamentos, participação em decisões administrativas e financeiras, registros societários, assinaturas em atos formais e plena compatibilidade patrimonial e fiscal declarada.

A Quarter executa contratos para a realização de eventos e operações sob demanda, mobilizando profissionais conforme o escopo e o cronograma de cada projeto, sem qualquer lotação permanente em secretarias ou repartições públicas. A divulgação de lista nominal de colaboradores não é pertinente, por envolver dados pessoais protegidos pela LGPD; as informações trabalhistas e previdenciárias permanecem disponíveis aos órgãos fiscalizadores competentes.

Os prestadores de serviço são contratados com base em critérios técnicos, operacionais e de disponibilidade. A empresa não possui competência legal para investigar vínculos familiares de pessoas físicas com agentes públicos ou detentores de mandato eletivo. Quando pertinente, declarações relacionadas a pessoas politicamente expostas são coletadas no momento do cadastro, sendo a verificação formal atribuição exclusiva dos órgãos de controle. Todas as contratações são formalizadas com documentação fiscal regular e permanecem disponíveis para fiscalização.

Os valores dos contratos firmados com a Prefeitura de São Paulo e com a São Paulo Turismo (SPTuris) são integralmente públicos e constam nos respectivos Portais da Transparência, conforme determina a Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011). Para uma análise precisa, é fundamental distinguir entre o valor total contratado (teto máximo autorizado), o valor empenhado e o valor efetivamente pago, uma vez que esses montantes não são equivalentes. Além disso, os valores variam anualmente conforme o volume de eventos demandados, não constituindo receita fixa.

Os processos administrativos de pagamento tramitam em sistema próprio do órgão contratante, ao qual cabe definir a instrução processual. Nos termos da legislação de contratações públicas, a liquidação exige nota fiscal e ateste do fiscal do contrato. A documentação operacional detalhada — como ordens de serviço, escalas, registros de presença e relatórios — permanece arquivada pela contratada e pelo contratante, sendo disponibilizada em caso de fiscalização formal. A ausência desses documentos no processo de pagamento não implica inexistência, mas tão somente distinção de natureza documental.

No que se refere a fornecedores específicos, a Quarter pode contratar empresas do setor de eventos para projetos determinados, sempre com formalização contratual e documentação fiscal regular, sem que isso implique vínculo societário ou empregatício permanente. Profissionais do mercado podem manter trajetórias independentes mesmo que atuem no mesmo segmento, e eventuais diretores ou gestores da empresa exercem funções com escopo contratual definido, observados critérios técnicos e experiência comprovada.

No que diz respeito a pessoas físicas mencionadas nominalmente, eventuais prestações de serviço podem ocorrer de forma pontual, especialmente em funções operacionais típicas do setor de eventos, sempre com documentação fiscal regular. Em outros casos, após verificação interna, pode não haver qualquer registro de vínculo ou contratação. Em respeito à LGPD e à proteção de dados pessoais, confirmações individualizadas dependem de base documental adequada ou de requisição formal por autoridade competente.

*Texto alterado às 14h49 para inclusão de informações, incluindo novo posicionamento da Quarter.

Da redação do Conexão Correio com Metrópoles

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