Desgaste entre Ciro e Michelle Bolsonaro que pode custar aliança no CE; entenda - Conexão Correio

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Desgaste entre Ciro e Michelle Bolsonaro que pode custar aliança no CE; entenda

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A recente troca de farpas entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) renovou a rusga entre ambos num momento em que bolsonaristas e tucanos buscam retomar negociações eleitorais. O PL nacional indica que não desistiu de compor a ampla coligação de oposição no Estado, que também é esperança de Ciro.

Na última sexta-feira (6), o político do PSDB afirmou que, embora as conversas oficiais com o PL estejam suspensas, ainda há uma "vaga guardada" para a aliança. Na mesma ocasião, ele criticou a interferência de Michelle nas tratativas, dizendo que ela “humilhou” o presidente estadual da sigla bolsonarista, o deputado federal André Fernandes, ao desautorizar a composição publicamente.

A declaração reforçou não só o distanciamento entre Ciro e Michelle como também as especulações de que o ex-ministro de fato seria o candidato apoiado pelos bolsonaristas no Ceará. No fim de fevereiro, a hipótese ganhou fôlego com anotações feitas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante reunião com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.

O rascunho do filho do ex-presidente, registrado por jornalistas na ocasião, sinalizou apoio a Ciro Gomes com uma informação até então inédita: de que o PL deve compor a chapa, portanto, indicando que a sigla pode aparecer na candidatura à Vice-Governadoria.

Havia ainda uma lista de nomes que podem disputar o Senado, incluindo Alcides Fernandes (PL), Priscila Costa (PL) e Roberto Cláudio (União). Ao O Globo, o senador disse que as anotações correspondem a sugestões feitas pelos integrantes da reunião, não necessariamente sua opinião.

Contudo, Michelle pode ser um grande obstáculo nas negociações, mobilizando a base conservadora contra o ex-ministro. Como presidente do PL Mulher, ela tem feito suas movimentações. 

Além de apoiar a campanha do senador Eduardo Girão (Novo) ao Governo do Ceará, a ex-primeira-dama tem sustentado a pré-candidatura de Priscila Costa ao Senado, mesmo sem a vereadora estar, inicialmente, nos planos do grupo que quer Ciro como candidato. 

Cabe destacar também que, apesar de haver chances de o diálogo retomar, há indefinições entre Ciro e Flávio. O ex-governador tem evitado se posicionar sobre a possibilidade de apoiar o senador do RJ em uma eventual disputa presidencial. Questionamentos desse tipo, para ele, são "desagradáveis" e devem ser respondidos conforme definição das direções partidárias.

"Por que eu apoiaria um camarada que não é do meu partido?”, disse. Segundo ele, tanto o PSDB quanto o União Brasil, principal aliado do tucanato cearense no momento, ainda irão definir, em âmbito nacional, seus posicionamentos eleitorais.

Da parte de Flávio, quanto ao apoio a Ciro, também não há nada definido. No último dia 1º, em manifestação contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o presidente Lula (PT), André Fernandes afirmou que as conversas estão suspensas e, "no momento oportuno", a decisão deve ser tomada.

O que disseram Ciro e Michelle?

Nessa sexta-feira (6), Ciro disse que não desistiu da aliança com o PL e lembrou o episódio que causou a suspensão das negociações com o partido, alfinetando Michelle. 

"Todo mundo viu, a esposa do ex-presidente da República, do Bolsonaro, veio aqui, humilhou André Fernandes, que é o presidente do PL. E eu não tenho nada a ver com isso, eu fiquei quieto. Aí o PL pediu um tempo para pacificar o problema interno deles. Quem sou eu para dizer 'não'? Dou o tempo. Está guardada aqui uma vaga para a aliança que una toda a oposição para salvar o Ceará", declarou Ciro.

Ele também comentou o histórico de desgastes com a família Bolsonaro, por causa dos embates quando disputou a presidência da República, e a possibilidade disso repercutir no processo eleitoral de 2026.

"Talvez nossas diferenças no plano nacional sejam insuperáveis, até porque eu fui candidato a presidente do Brasil quatro vezes. As minhas opiniões sempre foram muito claras, às vezes até exageradamente claras. E se eu não tiver seriedade, coerência, respeito ao povo cearense, vamos pegar gravações do passado em que eu estava contra o Lula e contra o Bolsonaro, defendendo a minha candidatura e vão querer requentar e usar para hoje. E nós, aqui, temos que tratar com o respeito da união possível, que é salvar o Ceará do desastre que nós estamos atolados", complementou.

Michelle se pronunciou pelas redes sociais, resgatando um áudio do ex-ministro fazendo críticas a Jair Bolsonaro. “Como cristã, esposa e mãe de família, jamais... JAMAIS trocarei nossos princípios e valores em nome de um tal pragmatismo”, escreveu na publicação. 

Logo em seguida, o story da ex-primeira-dama executou um áudio de uma entrevista de Ciro, na eleição presidencial de 2018, quando o ex-ministro teria colocado em dúvida a impossibilidade de Bolsonaro — eleito naquele pleito — ir ao debate por conta do episódio da facada. “Não dá pra confiar”, finalizou. 

Oposição minimiza episódio

A troca de farpas entre Michelle e Ciro repercutiu entre membros da ala opositora da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), durante a coletiva de imprensa no “Café da Oposição” dessa terça-feira (10). O grupo tenta costurar um palanque único em torno do ex-ministro, a partir da aliança entre o PSDB, o União Brasil e o PL.

Líder do PL na Casa, a deputada Dra. Silvana (PL) afirmou que não houve ataque de nenhum lado, ao defender que Ciro descreveu o sentimento e leitura daquele momento envolvendo André Fernandes. 

“A Michelle (Bolsonaro) atravessa um duro momento e não devemos exigir dela a serenidade necessária para condução nos estados. Aqui no estado, o deputado André Fernandes ficou de fazer essa condução”, frisou a parlamentar.

Ainda nessa terça-feira, o deputado estadual Carmelo Neto (PL) falou sobre o assunto ao ser questionado em coletiva de imprensa. Para o parlamentar, as divergências entre nomes do partido e Ciro são possíveis de serem contornadas, diante do ex-ministro ter se reposicionado politicamente e se colocado como nome mais competitivo contra o PT. 

Ele é o nome mais competitivo para derrotar o PT no estado do Ceará. Então, para além disso, aí você vai às conjecturas, de uma possível de uma possível aliança, de um possível diálogo, que está ocorrendo, é normal que ocorra. E a gente vai, com certeza, o PL vai tomar uma posição muito em breve nesse sentido.

Carmelo Neto

Deputado estadual pelo PL

Por sua vez, o líder do PDT na Casa, deputado Cláudio Pinho (PDT) disse que as articulações seguem da mesma forma, ao destacar o encontro de Ciro com nomes do PL, como o deputado Alcides Fernandes (PL), pré-candidato ao Senado pelo grupo. 

Essa questão aí foi porque a imprensa perguntou e ele (Ciro) entendeu naquele momento o sofrimento que o André estava passando por uma colocação que a ex-primeira-dama fez, em um evento. Você constranger um aliado da forma que ele foi constrangido. Então, eu interpreto que o Ciro saiu muito mais em defesa do André do que em questão de crise. Crise não teve, houve um mal-estar criado por ela que isso já foi superado.

Cláudio Pinho

Deputado estadual e líder do PDT na Alece

“No nosso palanque, o próprio Ciro tem dito isso, vai ser um um palanque plural. Vai ter apoiador do Lula que apoia o Ciro, vai ter apoiador do Bolsonaro que apoia o Ciro e vai ter o apoiador de centro que apoia o Ciro”, acrescentou o deputado Queiroz Filho.

Como o conflito começou?

O conflito resgatado na última semana tem origem no lançamento da pré-candidatura de Girão ao Governo do Estado, em novembro do ano passado. Em discurso no palanque, Michelle Bolsonaro criticou a articulação tocada por André Fernandes, afirmando que os correligionários locais "se precipitaram".

É sobre essa aliança que vocês se precipitaram de fazer. Eu adoro o André, passei em todos os estados falando do orgulho que tenho do Nikolas, do Carmelo, da esposa dele, Bela Carmelo, que foi eleita. Tenho orgulho de vocês. Mas fazer aliança com o homem que é contra o maior líder da direita, isso não dá.

Michelle Bolsonaro

Durante evento de apoio a Eduardo Girão

Na ocasião, ela ainda lembrou do histórico de embates entre a família Bolsonaro e Ciro, que, à época, ainda dizia que “a família Bolsonaro é de ladrão, é de bandido”, segundo Michelle. E completou: “Então não tem como. Não existe. A essência dele é de esquerda”.

Pouco antes disso, Michelle Bolsonaro já havia defendido aliança com Eduardo Girão, enfatizando que trabalharia pela sua eleição. “A direita é Girão. [...] Nós, como eleitores, iremos fiscalizar os nossos parlamentares se em 2026 eles derem um voto contrário”, completou. 

Logo após o evento, André Fernandes subiu o tom e convocou uma coletiva de imprensa para rebater as declarações de Michelle. O parlamentar afirmou que não aceitaria que "alguém de fora" viesse classificar a articulação como errada ou precipitada.

O deputado lembrou de visita feita por Bolsonaro a Fortaleza meses antes, ocasião na qual a aproximação entre os grupos ganhou repercussão. Segundo Fernandes, o próprio ex-presidente teria pedido para ligar para Ciro no "viva-voz" durante uma reunião com parlamentares cearenses.

O deputado explicou que a estratégia era colocar o seu nome à frente das negociações para poupar Bolsonaro de críticas diretas por se aproximar de um antigo adversário. "Ficou acertado que apoiaríamos Ciro Gomes. Logo em seguida, com o Valdemar também, só que o acordo era: é muito ruim para o Bolsonaro se aproximar de Ciro. Coloca o André, que qualquer pancada o André aguenta", pontuou.

Estou tentando fazer essa construção para derrotar o PT, ter um grande cabo eleitoral no Ceará e ter um candidato de centro-direita. Não aceito que venha alguém de fora dizer que é precipitado ou é errado. Se a esposa dele diz publicamente que a gente deu um passo errado, que foi precipitado, bom, então é uma aliança precipitada do próprio marido dela.

André Fernandes

Deputado federal e presidente do PL-CE

Conversas foram suspensas

Diante da crise deflagrada em Fortaleza, os filhos mais velhos de Jair Bolsonaro – o senador Flávio, o deputado federal cassado Eduardo (PL-SP) e o vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (PL) – saíram em defesa de André Fernandes e criticaram a postura de Michelle à época.

Flávio classificou a atitude da madrasta como "autoritária e constrangedora", afirmando que ela "atropelou o próprio presidente Bolsonaro". Eduardo seguiu a mesma linha, chamando o comentário de "injusto e desrespeitoso" com o deputado cearense.

O racha familiar, então, motivou uma reunião de emergência com a cúpula do PL, em Brasília. Do encontro, saiu a decisão de suspender oficialmente as tratativas com Ciro Gomes no Ceará.

Em nota, o partido relatou uma aparente trégua entre os correligionários, que contou com reunião prévia entre Michelle e André, momento no qual “conversaram, oraram juntos e, em seguida, esclareceram as questões relacionadas ao evento” em que as diferenças de pensamento foram expostas.

André Fernandes seguiu encarregado de tocar as negociações eleitorais no Ceará, desde que respeitem “os valores e princípios ligados à direita conservadora e que aumentem as chances de derrotar o projeto da esquerda no estado". 

Da redação do Conexão Correio com Diário do Nordeste 

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